Dor de garganta persistente: quando a causa não é infecciosa

Você já passou por aquela situação de tomar dois ciclos de antibióticos, trocar o anti-inflamatório e, mesmo assim, aquele incômodo chato do lado esquerdo da garganta não ir embora? É frustrante. A maioria de nós cresceu associando dor de garganta a uma gripe ou amigdalite, mas, no meu consultório, recebo semanalmente pacientes que já tentaram de tudo e a “inflamação” simplesmente não cede. O ponto aqui é que a garganta não é apenas um tubo de passagem; é uma região de engenharia complexa onde se cruzam a respiração, a fala e a deglutição. Quando uma dor persiste por mais de duas ou três semanas, precisamos mudar a chave do raciocínio: e se o problema não for um vírus ou uma bactéria?

O que pode estar escondido atrás desse incômodo? Quando falo em causas não infecciosas, abro um leque que vai desde questões funcionais até diagnósticos mais sérios. Um dos grandes vilões modernos é o refluxo laringofaríngeo. Diferente do refluxo clássico, aquele que causa queimação no estômago, aqui o ácido sobe e “banha” as cordas vocais e a faringe. O paciente sente um pigarro constante, uma sensação de globo na garganta (como se tivesse um caroço que não desce) e, claro, dor crônica. Mas, como cirurgião de cabeça e pescoço, meu olhar precisa ser mais aguçado para outras possibilidades.
cintilografia da tireoide como é feito
Existem os tumores, tanto benignos quanto malignos. O carcinoma epidermoide, por exemplo, é o tipo mais comum de câncer nessa região e costuma dar sinais sutis no início. Uma dor que irradia para o ouvido (a chamada otalgia reflexa) sem que o ouvido tenha qualquer problema é um sinal de alerta clássico que muita gente ignora. Quando a luz amarela deve acender Imagine o caso de um paciente, vamos chamá-lo de Sr. Jorge, 55 anos, fumante eventual. Ele sentia uma “pontada” ao engolir apenas alimentos secos.

Ele achava que era uma afta ou irritação. Após 20 dias, examinamos com uma videolaringoscopia — aquele exame rápido, feito no consultório com uma fibra ótica fininha — e detectamos uma pequena lesão na base da língua. O diagnóstico precoce permitiu um tratamento minimamente invasivo, preservando a voz e a capacidade de deglutição dele. Se você notar algum desses sinais, é hora de parar de automedicar a “garganta inflamada”: Rouquidão que dura mais de 15 dias. Dificuldade ou dor para engolir (disfagia). Um caroço (nódulo) palpável no pescoço. Cuspir sangue ou notar manchas brancas/avermelhadas persistentes na boca.